terça-feira, 13 de março de 2012

A Cadeira

cadeira.gif
"cadeira.gif" em http://fotos.sapo.pt/ajjs/fotos/?uid=Qw9SGyDqtwByo3NSgDCp

No dia 1 de Março de 2012 à entrada do prédio, a porta entreaberta espera pelo Luís que teima em não entrar, os seus olhos grandes iluminam o espaço, a sua voz trémula e medrosa repete muitas vezes: 
-Não quero! Não quero! 

Mas a força do momento é maior e o que tem de ser feito é inadiável. Uma pequena e estreita cadeira espera por ele, senta-se devagar e pensa: 
-Sim! Sim! É preciso!! 

As dúvidas o atormentam e pensa: 
-Será que doí? 
-Não quero, não! 
-Quanto tempo vou ficar assim? 

A campainha toca, acaba a tortura, o Luís olha para o seu corpo, mexe, balança e confirma, não lhe falta nada! 

Agora só resta fugir de tudo o que lhe rodeia, os amigos esperam por ele e respira, respira de alívio, tudo o que pensou ficou para atrás das costas. Afinal entrar num hospital não é para ficar lá! 

À saída telefona a uma amiga e pergunta: 
Luís-Onde está o metralha? (Metralha é a alcunha do seu melhor amigo, quer partilhar as dúvidas com ele) 
Amiga-Olha, não me digas nada. 
Luís-E o metralha? 
Amiga-Então conta lá tudo... 
Luís-A sério? 
Amiga-Lá está, segunda-feira vou aí, não leves a mal é a bateria. 
Luís-Desculpa, vai ter comigo, tens que dar o recado? Estou a brincar... 
Amiga-Rsssssssssss 


Mariajoao 10/03/2012

Leitura Trágica



Era Maio de 1893, uma sala escura. Leonor lia o livro de Dennis Diderot Jóias Indiscretas. O seu rosto alterava-se com espantos, sorrisos e abanava-se com rápidos movimentos. Fixava com nervosismo a maçaneta da porta.

LEONOR
Se entrasse por aqui o senhor meu pai, ai!

(O livro é folheado depressa, a ação do livro é empolgante. Leonor lê em voz alta.)

“Quer dizer que o senhor gostaria que eu fosse um pouco burra?” Ao que ele responde: “Por que não? Isso nos aproximaria, e, portanto, nos divertiríamos muito mais. É preciso uma imensa paixão para suportar uma humilhação atrás da outra.” Se a minha madrinha soubesse ou sonhasse que leio um romance proibido, desmaiava ou morria de desgosto.
“As mulheres andam vestidas lá?”, pergunta Mirzoza. Responde Mangogul: “Certamente. Mas não é por obediência, é por sedução – elas se cobrem para atiçar o desejo e a curiosidade...” então, este relato levaria ao seu último suspiro.

(De repente, ouvem-se passos, a maçaneta da porta move-se, atrapalhada, Leonor coloca o livro entre o xaile que prende à cintura e o seu ventre toma forma. Entra a mãe, uma mulher austera e a criada fiel cordeirinha e muito metediça).

CRIADA
Menina! Aqui sozinha? A sala está muito escura!

(Abre as cortinas com rapidez, o espaço ilumina-se.)

MÃE
Leonor, o que faz aqui na sala tão escura?

CRIADA
Sente-se mal menina? Parece que não está bem! O que é isso?

(Aponta de forma descarada para a barriga de Leonor. A mãe apercebe-se do pânico que Leonor sente, olha-a de modo fixo e com ar de espanto.)

MÃE
Está de esperanças? Que vergonha, como foi isso acontecer?… Estou a sentir-me muito mal!…

(Cai desmaiada. A criada socorre-a, enquanto de revês olha para Leonor.
Leonor paralisa imóvel. A azáfama do momento, os sons de desespero da criada chamam a atenção do pai, que entra na sala, vê a mulher caída e a criada aflita).

PAI
O que se passa aqui?

(Olha o rosto da filha.)

LEONOR
Senhor meu pai, eu explico…

(Os nervos do momento fazem com que o livro caía no chão. A criada grita.)

CRIADA
Deu à luz um livro!… Acorde minha senhora! Acorde! Não passa de um mal-entendido!...

(Esbofeteia várias vezes o rosto da senhora. O pai apanha o livro do chão, lê e passados alguns segundos olha a filha, uma forte dor no peito fá-lo cair. A criada grita.)

ah…ah…ah…ah…ah…ah…ah…ai…ai...ai…que desgraça, olhe o que fez!

(A mãe acorda nesse momento aturdida, quando vê o marido caído no chão, jazido, começa a uivar de dor).

MÃE
Aaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii!

(Os gritos acabam com um desmaio. Leonor chora agarrada à sua própria cara).

CRIADA
Que desgraça se abateu nesta casa, a menina não pode ser merecedora de felicidade. Este livro tem artes maléficas!!!

(Benze-se e joga-se ao livro para despedaçá-lo. Leonor evita tal ação. Durante algum tempo a criada disputa até o arrancar das mãos de Leonor e guarda-o no avental. A mãe acorda e, ao ver o marido, não consegue parar de chorar).

MÃE
Isto é muito grave… Sim, isto é muito grave! Viúva fiquei meu amor que partiste sem despedir-me de ti!

(Ajoelhada ao pé do marido faz-lhe festas na cabeça, volta a olhar para a filha, desta vez com ódio e grita de seguida.)

Espera-te a clausura do convento!

FIM

domingo, 11 de março de 2012

O Carrinho do Vasco


Era um dia especial para Mary. Ia receber um prémio pelo trabalho desenvolvido ao longo de 30 anos. Mary levou dias a magicar o que iria vestir nesse dia. Após visitar diversas lojas, conseguiu vestir-se com design e muito estilo.
De azul-marinho com um padrão liso e com uma mala compacta, Mary conseguiu encantar na cerimónia: pelo que disse e pela sua exuberante apresentação.

Bálsamo



Branco e extenso, guarda pacientemente as lisas paredes pintadas a tinta plástica, que tornam eternas e laváveis as pequenas histórias de inúmeras vidas.

Isqueiro Roxo

Chama.gif
O plástico cobre uma superfície suave e
o fogo aquece as ideias ao vento.
                                                             Mariajoao em 10/03/2012     







Imagem em http://fotos.sapo.pt/eduardojoao/fotos/?uid=kloKk6bE3Qy2PQ4q1RJs

A Nuvem Lavrada



Pico acima das nuvens
"Pico acima das nuvens" em http://fotos.sapo.pt/jomacedo/fotos/?uid=Un0zyVd0TogA8OeZkS3U
No azul celeste do ar
A terra cruza o espaço
Um cataclismo brinca isolado
Longe da nuvem lavrada
Onde se encontra a Leonor
Pois pensa ter um hiperparatiroidismo

Mariajoao em 03/03/2012

Frasco de Verniz Vermelho



Uma presença na sala destacava-se pela sua forma quadrada,
a sua cor preta e a sua aba circular.
As teclas eram espalmadas e tocava notas soltas.

O Caminho

Largo de São Francisco em Faro
No caminho curto da vida às travessas, faço sem pensar o que preciso para viver num dia qualquer, numa manhã igual as outras.

Num gesto banal puxo a persiana, afasto o cortinado e deixo passar o sol, o pequeno almoço a dois decorre sem sentido, ou mais, com o grande sentido de alimentar o corpo da energia vital e descobrir que a vida corre o risco de passar todos os dias por igual.

Em cada passo dado me empurro lentamente, em cada gesto diário descubro que sou gente, um, dois, três e mais minutos sem fim separam esta vida de um mundo irreal, o ar que respiro entra e sai de mim lentamente ao ritmo de cada passo até chegar ao fim.

Visão do dia a dia igual a muitos dias, passa a estrada da vida numa passadeira branca, o tempo corre veloz e não espera por mim, num mundo a correr são muitos os que me acompanham, neste solitário caminho que é só uma forma de viver, me acompanham adultos e crianças de todas as cores e tamanhos cada uma com o seu mundo, cada uma com um pensamento, cada uma com um sonho.

Chego ao meu destino e muda o cenário, o palco já é outro, o público espera, uns, vestidos de gala outros de dor infinita à espera que o sol brilhe a todos por igual.

O caminho chega ao fim e começa a melodia, com vozes diferentes, agudas e graves que deixam ver as almas, numa melodia cantada ao som de uma lágrima, de um sorriso, de um beijo ou de uma despedida, uma melodia com cheiro a dor, com cheiro a esperança de viver cada minuto como um minuto qualquer, uma dádiva de vida para ajudar a viver.
Mariajoao em 06/03/2012

sábado, 10 de março de 2012

Ao fundo do corrredor

Um baloiço livre embala a infância ao sabor do vento. O colorido do vestido esconde-se entre o verde, o azul e o amarelo de uma tarde de primavera. No rosto, um sorriso aberto espelha a intensa luz do sol.