sexta-feira, 30 de março de 2012

Caracóis de Sonhos



Devagar trepa a folha longa, com a sua concha redonda, perfeita!
Tem apenas aquele objetivo, por agora…
Uma tarde imensa chega para aquele fim.
Ao lado, passa alguém muito apressado
Aquela tarde é pequena para ali.
E de redes e cordas nos unimos de compromissos.
Os dias fogem, os anos correm e a vida abrevia,
Na pressa de querer, no egoísmo de ter, na força de ir.
A concha redonda agora desce a longa folha
Atrás de si deixa um brilho do prazer que foi aquele momento.
Ao lado, um rosto amarrotado sonha com saudade daquilo que não fez
Agora com tempo observa a beleza da concha perfeita.

Identidade



Ser é uma questão difícil de refletir, sentido da vida tão ambíguo,
Tão triste e malfadado, maltratado pela existência.
Impõe a alegria como sentido, amar como destino, fado como lamurio.
A minha alma é lusitana de tristeza,
Descende de ricos patrimónios de descobertas.
Sou a luz da esperança, porque sonho e crio o meu destino.
Sou a imensidão do horizonte, porque sei que sou imenso.
O mar é a minha alma, tão grande, volátil e ensejo,
Tão forte e quebrável na areia, que é o meu estar.
Sou as formas, que querem que seja, sou a luz que ilumina os que me seguem,
Sou a força que impõe o meu ser.
A estrela guia do sentido da vida, mas quero ser eu e não consigo.

Enigma



Depois de ouvir os ensinamentos, descobri o que era viver,
Neste mundo vazio de pensamentos, regras e desígnios.
Se vou para a esquerda olham e tropeçam,
Se à direita encontro o dom da vida, a crítica atormenta.
Quero ser feliz, mas não sou capaz.
Olho o céu em busca de uma esperança.
O céu responde-me:
Vai! Segue a energia! Muda… a vida não te quer aqui.
Busca o teu eu, afasta o que és.
Sei o que quero, que está fora de mim,
Mas… eu quero ser feliz! Poço?
Não! Porque isso é muito forte. Saí!

Rumos



Adeus! Foi a palavra mais lilás que proferimos na despida,
Um bege que imortalizou um momento de união,
Rosa de amor e descoberta.
Gostava de vestir o verde dos campos e o castanho da terra,
Ter a esperança da imensidão do azul do mar.
Olhar o horizonte branco e sentir o descampado das emoções.
Sentir o que experimento no encarnado desejo.
Transmitir a vastidão das descobertas como o amarelo da luz,
Da vida, no pranto do meu incolor sentir.
Gostava apenas de ser feliz como o pássaro que voa cinzento de liberdade;
Independência de ação como o branco da folha,
Que cai da árvore da vida azul escura, incógnita.

terça-feira, 27 de março de 2012

Canta-me Uma Canção



http://gorpacult.blogspot.pt/2012/03/musica-alem-da-partitura.html















Uma melodia espera por nós
é a fantasia de quem quer o amor
como nota musical que se estende em do maior
é o maior dos sonhos meus.

Melodia que começa com um acorde suave e subtil
faz vibrar o nosso templo e a destempo me sorri
som que toca até o infinito e que chega ao coração
ainda ouço a tua voz dentro de mim.

Canta-me suavemente ao som dos meus sonhos
uma canção de amor que fale por ti
canta-me uma doce melodia
que faça viver a mulher que há em mim.

Canta-me em clave de sol
para não arrefecer o coração,
canta-me com as notas ao vento
que soprem mais além do pensamento
e transmitam esse sentimento
que te faz abraçar a vida

Canta-me uma melodia capaz de
parar o tempo e o momento de amar a tempo,
melodia de uma sinfonia de um amor
que vai e vem ao som do querer.

Mariajoao 21/08/2011.

Retalhos de Paixão

Quadro pintado a óleo por Mariajoao nas aulas da Provectus.

Às vezes tenho saudades,
do tempo que não vivi...
das pessoas que não conheci,
dos amores que não encontrei...

A vida que vivi às vezes...
passou das vezes que a vivi!
Com os olhos da primavera,
que pousou ao pé de mim...

Às vezes tenho saudades,
do teu olhar calmo e sereno...
da tua voz carinhosa,
do teu abraço tão forte...

Da terra molhada em lágrimas...
do corpo molhado em suor...
De um dia de céu azul!
De uma noite calma e serena...

Às vezes tenho saudades,
desses retalhos de paixão...
paixão vivida aos retalhos,
cada uma da sua cor...

Retalhos que são os amores
de uma sinfonia incompleta.
Retalhos que nada são...
mas juntam tudo o que eu sou...


Maria João FS.
04/02/2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Amanhã é Domingo

Amanhã é Domingo, disse ele, por cima do sorriso mais aberto e espontâneo que conseguira ensaiar em vários anos de desejos abafados. “Vejo-te amanhã?” tinha-lhe eu perguntado por cima da minha ingenuidade quase perdida em vários anos.

Amanhã é Domingo, disse ele, por trás do seu olhar de sincera confiança e intimidade e eu vi todo o seu esforço para que eu não visse, aquilo que eu vejo quando olho nos seus olhos e o sinto dizer Amanhã é Domingo.

Amanhã é Domingo, repeti eu, por cima do sorriso mais doce e tímido que conseguira ensaiar em vários anos de sorrisos inconformados.

Amanhã é Domingo, repeti eu, e ele viu por trás do meu olhar a sincera aceitação que eu mostrei mas esqueci de sentir anos atrás.

Amanhã é Domingo, repetiu ele, na necessidade de reafirmar o Domingo como apenas Domingo, apenas um dia na semana. Eu calei a insegurança e ele viu contentamento.

Amanhã é Domingo, repetiu, com o seu sorriso fácil – forçado – só eu sei – tentando mostrar tudo o que para além dos Domingos há entre nós. Ele mostrou a segunda e eu vi o dia antes, ele falou na terça e eu temi o sábado. Ele não mostrou mas eu vi. Eu vi. Eu vi.  

Amanhã é Domingo, repeti com o meu sorriso treinado – forçado – só eu sei – tentando esconder a tristeza dos Domingos em que fico sozinha chorando o desejo secreto de trocar todos os dias meus pelos Domingos que não me dá. Ele não mostrou mas eu vi. Eu vi. Eu vi.

Ele mostrou-me os finais de tarde, passados todos os dias. Todos os finais do dia, num quarto arrendado, numa rua estreita, vestidos pelo desejo e desnudados pelos lençóis. E eu fechei os olhos e vi os amanheceres a dois onde eu não estou, os jantares tardios debaixo da luz amarela da cozinha enquanto eu janto sozinha numa sala vazia.

Amanhã é Domingo, pensámos os dois, suspirando para disfarçar a ansiedade de não nos vermos um dia, de não nos termos um dia, de não nos sabermos um dia. Um dia. Apenas um dia. Como eu queria ter na tua semana esse um dia.

Amanhã é Domingo, pensou ele, e viu os chinelos junto ao sofá, a chávena de café aquecendo a mão e o jornal aberto sobre os joelhos para ver o dia lá fora e esquecer o de dentro.

Amanhã é Domingo, pensou ele, e viu as cartas cansadas sobre a mesa ao final da noite. Viu o gelo derretido no final dos copos, no final das conversas, no final das vidas, que já não são nossas, mas que se recordam ainda e impacientemente se revivem. Viu o peso de muitos anos que não o fizeram sentir-se feliz.

Amanhã é Domingo, pensei eu, e vi os sorrisos trocados, por trás das mãos encontradas em locais onde as mãos não andam nem se esperam, vi os beijos tímidos, que já só tímidos podem ser, por entre os flashes das fotografias de Domingo.

Amanhã é Domingo, pensei eu, e vi o corpo dela meio despido sobre a cama, no final da cama, no final da noite, no final da vida. Quando a vida já não sabe ser outra vida mas as vidas se querem ainda, reencontram, rebuscam. E eu me sinto triste assim sem ti, que não consegui ter em tantos anos.

Domingo é um bom dia, disse ele, sem saber o que dizer, quando sentiu em mim a tristeza de saber já ser Domingo novamente.

Domingo é um bom dia? Disse eu com o olhar, quando o perguntar não soube fazer-se pergunta.

Domingo é um bom dia, disse ele, querendo mudar rapidamente o assunto. Vestiu o seu tom grave - tão natural! não o soubesse eu  ensaiado para fugir dali – e falou de como a Segunda se segue ao Domingo, da Terça que vem depois e de tantas coisas que ele diz quando não diz nada e que eu não oiço quando a única coisa que faço é ouvi-lo.

Domingo é um bom dia, disse eu, quando senti que mais nada poderia ainda dizer. Guardei a minha mão para mim, porque sei que não são minhas as suas mãos quando me fala assim. Olhei com um olhar vazio, porque sei que não são meus os seus olhos quando me olha assim. E bebi todas as suas palavras, mesmo sabendo que não fala para mim quando me fala assim.  

Mas não foi Domingo ainda ontem?, perguntei eu, quando me calei no meu silêncio.

Mas não foi Domingo ainda ontem?, perguntou ele, quando não teve coragem de dizer mais nada.   

Amanhã é Domingo, repetimos os dois, enquanto nos vestíamos em silêncio e nos despedíamos com os pequenos gestos de sempre.

Domingo é um bom dia, disse eu, na última vez que nos beijámos, quando quis que o beijo fosse mais o mais forte e quente dos nossos beijos mas também o mais suave e descomprometido de todos eles.

Domingo é um bom dia, disse eu, enquanto lhe perguntava se podia sair eu primeiro naquela noite, enquanto o ouvia responder que sim, acenando com a cabeça e sorrindo demasiado. Que fosse eu primeiro, que tomasse cuidado para não ser vista, que chegasse bem a casa, que passasse um bom Domingo.

Domingo é um bom dia, disse eu, na última vez que nos vimos, quando olhei sobre o ombro ao sair pela porta e murmurei quase sem mexer os lábios; quando desci a rua estreita e mal iluminada, sentindo as gotas que depois da chuva ainda pingavam das árvores; quando fiquei descalça e caminhei junto à linha do comboio.

Domingo é um bom dia, soube finalmente quando sorri, pensando que, depois de tantos anos, um Domingo seria finalmente meu; quando esperei pela luz que se aproximava e atravessei… Sim, Domingo é um bom dia... para o meu funeral.

sábado, 24 de março de 2012

O autocarro já passou


O leão comia um belo bife sentado na esplanada do bar,
As nuvens malabaristas, que saltitam de lá para cá,
São umas verdadeiras artistas. 
No jardim zoológico os carros voam com asas gigantescas de cartão
E os elefantes às riscas comem trombas de chita.
- Se estiver com dores na unha vou ao dentista
Diz o malabarista sem braços
Mantendo três focas no ar.
Mas o dente doía tanto que até o pé tremia.
Ao olhar pelo dentista, vi uma janela sem dentes.
Se o elefante soubesse, hoje não tinha chovido.
Agarra o trapézio, que o autocarro já passou!
Boca fresca, só lavando três vezes com as malas à porta.

Insónia


Completamente escuro
Ouve-se uma sirene
A mulher acende o candeeiro.
Estão ambos (H e M) deitados na cama, a mulher acendeu o candeeiro do lado do Homem e encontra-se debruçada sobre ele que está de costas.
H – São horas?
M – Não. Ainda não.
H – Dorme.
M – Não consigo.
H – Queres falar? (vira-se para ela)
M – Não, deixa… É tarde. Dorme.
(o Homem vira-se, ela apaga a luz)
Pausa
M- Miguel?
H – Sim?
M – Estás a ouvir?
H- O quê? (acende a luz)
M – Qualquer coisa na rua. Não tenho a certeza. Se calhar é um cão. Não ouviste nada?
Homem senta-se. Pausa
H – Queres que vá ver?
M – Tenho a certeza que ouvi um carro.
Homem levanta-se, vai até à janela e abre-a
H – Não vejo nada.
M – Sim, se calhar não é nada. Anda, vem aqui para ao pé de mim.
Ele fecha a janela e deita-se.
M – Tens os pé frios.
H – Está frio lá fora.
Ela apaga a luz e volta a acender.
M – Podemos falar um bocadinho? Tenho medo. Eles, eles… E se eles…?
H – (abraça-a) Não tenhas medo. Eu estou aqui.
M – Prometes?
H – Claro que prometo. Lembras-te quando nos conhecemos?
M – Isto é diferente. Se eles vierem…
H – Dorme. Não vêm. Não sabem onde estamos.
M – Escuta. Estás a ouvir? (levanta-se e vai à janela) São eles. Tenho a certeza que são eles. (corre a cortina)
H – Vês alguém?
M – Não.
H – Então?
M – Mas vi uma sombra a virar a esquina.
H – Devia ser um cão. Andam por aí alguns.
M – Não! Tenho a certeza que eram eles. Olha, vem ali outra vez. Estou a vê-lo.
(ele levanta-se e corre até à janela)
H – Não te disse? É só alguém a passear o cão.
M – E tu achas mesmo que alguém anda a passear o cão com este frio? A esta hora?
H – Não sei que horas são.
M – Ora, não te faças de parvo! Achas que tens piada? Não levas nada a sério. Tem alguma piada, é? Eu não quero morrer.
H – Não sejas parva. Não nos vai acontecer nada.
M – Também não vinha ninguém atrás de nós e vê bem no que estamos metidos. (começa a andar pelo quarto, exaltada) E dizes tu que gostas de mim? Não levas nada a sério. Não se pode confiar em ti. A culpa é toda tua. Não és homem, não és nada. Nem consegues tomar conta de mim. Não disseste que me protegias?
H – (abraça-a) E protejo. Estou aqui.
M – Nunca ouves o que te digo.
H – Ouço. E por ouvir é que acho que estás a ser parva. Tenta acalmar-te. Tomaste os comprimidos?
M – Tomei.
H – Então acalma-te e vamos dormir. (encaminha-a para a cama) Toma, bebe um pouco de água. Estes nervos. Tens que te controlar. Não é bom. Imaginas coisas.
M – Eu não imagino nada!
H – Sim, eu sei. Mas agora vamos dormir. Estou cansado. Tapa-te, está frio. Vais ficar doente. (deita-se também)
M – Deixa a luz acesa. Tenho medo.
H – Ok, mas dorme. Já é tarde.
Pausa. Dormem
Ouvem-se passos bruscos pela escada e batem à porta.
M – Eu não te disse que eles vinham? (assustada)