Apenas o preto permanecia castanho
Os prados, outrora brancos
Agora perdidos na concha do céu
Pairando sobre o céu
Traído por uma Maria
E preso nas artroses da memória.
domingo, 18 de março de 2012
Cama de Cristal
A Raquel percorreu todo o corredor esverdeado, até chegar à última porta. Sentiu o cheiro a éter habitual e abriu com esforço a porta cinzenta. Ao centro do quarto, descoberto, no extremo do lençol branco, o rosto pálido e muito envelhecido. Nove décadas e meia de rugas e a serenidade de quem viveu. A Raquel pousou sobre o rosto uma mão e perguntou
- Mamã? Estás acordada?
Abri os olhos e notei que o quarto mudara: o cesto da fruta sobre a pequena mesa de apoio com rodas transformara-se numa jarra com flores cor de Kiwi e ameixa. Na minha mão ainda via as picadas das agulhas mas, ao lado da cama, onde a enfermeira deixara um saco de soro pendurado, num gancho metálico, estava agora uma Cama de Cristal muito pequenina. Dentro da cama pequenina, dormia uma bebé, numa manta cor de rosa.
As minhas mãos, outrora frágeis, manchadas, enrugadas, velavam agora, firmes e suaves, por aquela bebé, deitada numa cama pequenina e transparente.
Uma sensação de eterno invadiu todo o quarto. Entre as duas, um amor calmo. A Raquel, despediu-se em silêncio, com o mesmo amor com que eu a cumprimentei no primeiro dia.
- Mamã? Estás acordada?
Abri os olhos e notei que o quarto mudara: o cesto da fruta sobre a pequena mesa de apoio com rodas transformara-se numa jarra com flores cor de Kiwi e ameixa. Na minha mão ainda via as picadas das agulhas mas, ao lado da cama, onde a enfermeira deixara um saco de soro pendurado, num gancho metálico, estava agora uma Cama de Cristal muito pequenina. Dentro da cama pequenina, dormia uma bebé, numa manta cor de rosa.
As minhas mãos, outrora frágeis, manchadas, enrugadas, velavam agora, firmes e suaves, por aquela bebé, deitada numa cama pequenina e transparente.
Uma sensação de eterno invadiu todo o quarto. Entre as duas, um amor calmo. A Raquel, despediu-se em silêncio, com o mesmo amor com que eu a cumprimentei no primeiro dia.
No dia do Terramoto
1 de Novembro de 1755 às 9:30 da manhã, Igreja de S. António. 5 mulheres assistem à missa celebrada pelo Prior Manuel Francisco. De repente, tudo começa a tremer violentamente.
Prior
Minhas filhas. Estamos aqui para lembrar os nossos entes queridos que já nos deixaram. Mesmo aqueles que não tenham sido assim tão queridos. Todos merecem a nossa oração. Mesmo as ovelhas tresmalhadas devem receber o louvor de Deus e nós, como bons cristãos, devemos orar por todos. Deus quer-nos bons. Quer-nos a amar o próximo. Deus mostra-nos sempre o bom caminho e quando não o seguimos mostra-nos que estamos errados. Que é isto…
(O prior está no altar a fazer a homilia quando o chão começa a tremer)
1ª Mulher
O que é isto meu Deus!
(Colocando as mãos sobre o peito)
2ª Mulher
O chão está a tremer. Não pára!
(Olhando para trás vendo que a igreja estava vazia)
Prior
É um terramoto. Vamos minhas filhas. Vamos para a rua. Depressa.
(Disse o prior saindo do altar)
3ª Mulher
Temos que ir depressa que isto não pára e a igreja ainda nos cai em cima da cabeça.
(Levantando-se enquanto começam a cair pedras do tecto)
1ª Mulher
Ai minha filha que são os mortos a quererem vir novamente ao mundo. Que Deus nos acuda.
(Segurando com força no braço da 2ª Mulher enquanto se levantava do banco)
4ª Mulher
Sr. Prior é Deus que nos está a dizer que andamos pelos maus caminhos? Está a castigar-nos?
(Fitando o padre enquanto este já estava junto dos bancos)
Prior
Venha D. Lurdes. Não pense nisso agora. Deus perdoa tudo aos pecadores.
(Disse o padre enquanto lhe pegava no braço e a encaminhava para a porta da igreja)
2ª Mulher
Vamos morrer todos aqui debaixo das paredes!
(Disse gritando olhando para o tecto com os braços no ar)
Ao chegarem ao adro da igreja estavam dois homens a conversar calmamente como se não se tivessem apercebido o que estava a acontecer. Diziam:
1º Homem
É incrível, é incrível
2º Homem
Ouviu a novidade compadre Sebastião?
1º Homem
Sim ouvi compadre Zé. O alcaide foi traído pela mulher, por ciúmes.
2º Homem
Eu já me deixei disso…
1º Homem
Pois, ele toma um bálsamo novo das índias.
2º Homem
Sim, toma. Mas acho que são umas mesinhas caseiras. Anda sempre atordoado.
1º Homem
Vejo-o sempre a chegar muito direito.
2º Homem
E com roupa de barões.
1º Homem
Dizia mais que com roupa de viados.
Pulseira de Madeira
Olhei e maravilhei-me. Era grande mas tinha um aspecto leve. Fugia pelos carris fazendo dançar as cabines forradas a madeira clara. Eram quadros geométricos extensíveis que iam e vinham acordando a paisagem que teimava em querer dormir sem receios, sem sustos, sem vontades.
Poema desconstruído
Sentia o azul na pele
Escapolia o cavalo flores naquela seia
Cheia de peixe cintilantes
Que nasciam dos frutos estrelas
Rita queria bebe-los
Escapolia o cavalo flores naquela seia
Cheia de peixe cintilantes
Que nasciam dos frutos estrelas
Rita queria bebe-los
Impertinente
-Sai daqui. O baloiço é meu. Anda, empurra-me. Cheguei primeiro.
Gritava com o irmão que também queria estar no baloiço. Era mais nova que ele e por isso ganhava sempre este tipo de lutas. A sua desculpa era o ano e meio que tinha a menos que o irmão e que servia de desculpa para levar a sua vontade acima da dos outros. Tinha percebido como devia fazer para fazerem sempre o que queria e a sua estratégia demonstrara-se vencedora. Um grito agudo ensurdecedor e uma cara de choro e poucos amigos. Receita infalível.
Foto: http://pedeumdesejoo.blogspot.pt
Fotografia
A imagem é de alguém feliz pela vida. Ri e irradia aquilo que a circunscreve, irradia-me a mim que a vejo. Tem uma luz no rosto que preenche aquilo que anseia.
Foto: http://blogantes.blogspot.pt
Foto: http://blogantes.blogspot.pt
terça-feira, 13 de março de 2012
A Cadeira
| "cadeira.gif" em http://fotos.sapo.pt/ajjs/fotos/?uid=Qw9SGyDqtwByo3NSgDCp |
No dia 1 de Março de 2012 à entrada do prédio, a porta entreaberta espera pelo Luís que teima em não entrar, os seus olhos grandes iluminam o espaço, a sua voz trémula e medrosa repete muitas vezes:
-Não quero! Não quero!
Mas a força do momento é maior e o que tem de ser feito é inadiável. Uma pequena e estreita cadeira espera por ele, senta-se devagar e pensa:
-Sim! Sim! É preciso!!
As dúvidas o atormentam e pensa:
-Será que doí?
-Não quero, não!
-Quanto tempo vou ficar assim?
A campainha toca, acaba a tortura, o Luís olha para o seu corpo, mexe, balança e confirma, não lhe falta nada!
Agora só resta fugir de tudo o que lhe rodeia, os amigos esperam por ele e respira, respira de alívio, tudo o que pensou ficou para atrás das costas. Afinal entrar num hospital não é para ficar lá!
À saída telefona a uma amiga e pergunta:
Luís-Onde está o metralha? (Metralha é a alcunha do seu melhor amigo, quer partilhar as dúvidas com ele)
Amiga-Olha, não me digas nada.
Luís-E o metralha?
Amiga-Então conta lá tudo...
Luís-A sério?
Amiga-Lá está, segunda-feira vou aí, não leves a mal é a bateria.
Luís-Desculpa, vai ter comigo, tens que dar o recado? Estou a brincar...
Amiga-Rsssssssssss
Mariajoao 10/03/2012
Leitura Trágica
Era Maio de 1893, uma sala escura. Leonor lia o livro de Dennis Diderot Jóias Indiscretas. O seu rosto alterava-se com espantos, sorrisos e abanava-se com rápidos movimentos. Fixava com nervosismo a maçaneta da porta.
LEONOR
Se entrasse por aqui o senhor meu pai, ai!
(O livro é folheado depressa, a ação do livro é empolgante. Leonor lê em voz alta.)
“Quer dizer que o senhor gostaria que eu fosse um pouco burra?” Ao que ele responde: “Por que não? Isso nos aproximaria, e, portanto, nos divertiríamos muito mais. É preciso uma imensa paixão para suportar uma humilhação atrás da outra.” Se a minha madrinha soubesse ou sonhasse que leio um romance proibido, desmaiava ou morria de desgosto.
“As mulheres andam vestidas lá?”, pergunta Mirzoza. Responde Mangogul: “Certamente. Mas não é por obediência, é por sedução – elas se cobrem para atiçar o desejo e a curiosidade...” então, este relato levaria ao seu último suspiro.
(De repente, ouvem-se passos, a maçaneta da porta move-se, atrapalhada, Leonor coloca o livro entre o xaile que prende à cintura e o seu ventre toma forma. Entra a mãe, uma mulher austera e a criada fiel cordeirinha e muito metediça).
CRIADA
Menina! Aqui sozinha? A sala está muito escura!
(Abre as cortinas com rapidez, o espaço ilumina-se.)
MÃE
Leonor, o que faz aqui na sala tão escura?
CRIADA
Sente-se mal menina? Parece que não está bem! O que é isso?
(Aponta de forma descarada para a barriga de Leonor. A mãe apercebe-se do pânico que Leonor sente, olha-a de modo fixo e com ar de espanto.)
MÃE
Está de esperanças? Que vergonha, como foi isso acontecer?… Estou a sentir-me muito mal!…
(Cai desmaiada. A criada socorre-a, enquanto de revês olha para Leonor.
Leonor paralisa imóvel. A azáfama do momento, os sons de desespero da criada chamam a atenção do pai, que entra na sala, vê a mulher caída e a criada aflita).
PAI
O que se passa aqui?
(Olha o rosto da filha.)
LEONOR
Senhor meu pai, eu explico…
(Os nervos do momento fazem com que o livro caía no chão. A criada grita.)
CRIADA
Deu à luz um livro!… Acorde minha senhora! Acorde! Não passa de um mal-entendido!...
(Esbofeteia várias vezes o rosto da senhora. O pai apanha o livro do chão, lê e passados alguns segundos olha a filha, uma forte dor no peito fá-lo cair. A criada grita.)
ah…ah…ah…ah…ah…ah…ah…ai…ai...ai…que desgraça, olhe o que fez!
(A mãe acorda nesse momento aturdida, quando vê o marido caído no chão, jazido, começa a uivar de dor).
MÃE
Aaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii!
(Os gritos acabam com um desmaio. Leonor chora agarrada à sua própria cara).
CRIADA
Que desgraça se abateu nesta casa, a menina não pode ser merecedora de felicidade. Este livro tem artes maléficas!!!
(Benze-se e joga-se ao livro para despedaçá-lo. Leonor evita tal ação. Durante algum tempo a criada disputa até o arrancar das mãos de Leonor e guarda-o no avental. A mãe acorda e, ao ver o marido, não consegue parar de chorar).
MÃE
Isto é muito grave… Sim, isto é muito grave! Viúva fiquei meu amor que partiste sem despedir-me de ti!
(Ajoelhada ao pé do marido faz-lhe festas na cabeça, volta a olhar para a filha, desta vez com ódio e grita de seguida.)
Espera-te a clausura do convento!
FIM
LEONOR
Se entrasse por aqui o senhor meu pai, ai!
(O livro é folheado depressa, a ação do livro é empolgante. Leonor lê em voz alta.)
“Quer dizer que o senhor gostaria que eu fosse um pouco burra?” Ao que ele responde: “Por que não? Isso nos aproximaria, e, portanto, nos divertiríamos muito mais. É preciso uma imensa paixão para suportar uma humilhação atrás da outra.” Se a minha madrinha soubesse ou sonhasse que leio um romance proibido, desmaiava ou morria de desgosto.
“As mulheres andam vestidas lá?”, pergunta Mirzoza. Responde Mangogul: “Certamente. Mas não é por obediência, é por sedução – elas se cobrem para atiçar o desejo e a curiosidade...” então, este relato levaria ao seu último suspiro.
(De repente, ouvem-se passos, a maçaneta da porta move-se, atrapalhada, Leonor coloca o livro entre o xaile que prende à cintura e o seu ventre toma forma. Entra a mãe, uma mulher austera e a criada fiel cordeirinha e muito metediça).
CRIADA
Menina! Aqui sozinha? A sala está muito escura!
(Abre as cortinas com rapidez, o espaço ilumina-se.)
MÃE
Leonor, o que faz aqui na sala tão escura?
CRIADA
Sente-se mal menina? Parece que não está bem! O que é isso?
(Aponta de forma descarada para a barriga de Leonor. A mãe apercebe-se do pânico que Leonor sente, olha-a de modo fixo e com ar de espanto.)
MÃE
Está de esperanças? Que vergonha, como foi isso acontecer?… Estou a sentir-me muito mal!…
(Cai desmaiada. A criada socorre-a, enquanto de revês olha para Leonor.
Leonor paralisa imóvel. A azáfama do momento, os sons de desespero da criada chamam a atenção do pai, que entra na sala, vê a mulher caída e a criada aflita).
PAI
O que se passa aqui?
(Olha o rosto da filha.)
LEONOR
Senhor meu pai, eu explico…
(Os nervos do momento fazem com que o livro caía no chão. A criada grita.)
CRIADA
Deu à luz um livro!… Acorde minha senhora! Acorde! Não passa de um mal-entendido!...
(Esbofeteia várias vezes o rosto da senhora. O pai apanha o livro do chão, lê e passados alguns segundos olha a filha, uma forte dor no peito fá-lo cair. A criada grita.)
ah…ah…ah…ah…ah…ah…ah…ai…ai...ai…que desgraça, olhe o que fez!
(A mãe acorda nesse momento aturdida, quando vê o marido caído no chão, jazido, começa a uivar de dor).
MÃE
Aaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii!
(Os gritos acabam com um desmaio. Leonor chora agarrada à sua própria cara).
CRIADA
Que desgraça se abateu nesta casa, a menina não pode ser merecedora de felicidade. Este livro tem artes maléficas!!!
(Benze-se e joga-se ao livro para despedaçá-lo. Leonor evita tal ação. Durante algum tempo a criada disputa até o arrancar das mãos de Leonor e guarda-o no avental. A mãe acorda e, ao ver o marido, não consegue parar de chorar).
MÃE
Isto é muito grave… Sim, isto é muito grave! Viúva fiquei meu amor que partiste sem despedir-me de ti!
(Ajoelhada ao pé do marido faz-lhe festas na cabeça, volta a olhar para a filha, desta vez com ódio e grita de seguida.)
Espera-te a clausura do convento!
FIM
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